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O Evangelho Segundo Lucas 17-24

O Evangelho Segundo Lucas 17-24

 

Versão Ferreira de -Tradução de Joseph Smith

Capítulo 17

1 E disse aos discípulos: é impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem!

2 Melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma mó de atafona, e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequenos.

3 Olhai por vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o e, se ele se arrepender, perdoa-lhe.

 

4 E, se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo de novo, dizendo: Arrependo-me; perdoar-lhe-ás.

5 Disseram-lhe então os apóstolos: Senhor, acrescenta-nos a fé.

 

6 E disse o Senhor: Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Desarraiga-te daqui, e planta-te no mar; e ela vos obedeceria.

7 E qual de vós terá um servo a lavrar ou a apascentar gado, a quem, voltando ele do campo, diga: Chega-te, e assenta-te à mesa?

 

8 Não lhe dirá antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu?

9 Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Digo vos que não.

10 Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque  fizemos somente o que devíamos fazer e nada mais.

11 E aconteceu que, indo ele a Jerusalém, passou pelo meio da Galiéia e de Samaria;

 

12 E, entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe;

13 E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.

 

14 E ele disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos.

15 Um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz;

16 E caiu aos pés de Jesus, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano.

 

17 E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove?

18 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?

19 E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou.

20 E, interrogado pelos fariseus sobre quando havia de vir o reino de Deus, respondeu-lhes, e disse: O reino de Deus não vem com aparência exterior.

 

21 Nem dirão: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali; porque eis que o reino de Deus já chegou a vós.

22 E disse aos discípulos: Dias virão em que desejarão ver um dos dias do Filho do homem, e não o verão.

23 E se vos disserem: Ei-lo aqui, ou: Ei-lo ali. Não vades atrás deles, nem os sigais;

24 Porque, como o primeiro alvor da manhã que brilha desde uma extremidade inferior do céu e ilumina até à outra extremidade, assim será também o Filho do homem no seu dia.

 

25 Mas primeiro convém que ele padeça muito, e seja reprovado por esta geração.

26 E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do homem.

27 Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos.

28 Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló: Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam;

29 Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, e os consumiu a todos.

30 Assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar.

 

31 Naquele dia, o discípulo que estiver no telhado, tendo as suas alfaias em casa, não desça a tomá-las; e, da mesma sorte, quem estiver no campo não volte para trás.

 

32 Lembrai-vos da mulher de Ló.

33 Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á, e qualquer que a perder, salvá-la-á.

34 Digo-vos que naquela noite estarão dois numa cama; um será tomado, e outro será deixado.

35 Duas estarão juntas, moendo; uma será tomada, e outra será deixada.

36 Dois estarão no campo; um será tomado, o outro será deixado.

37 E, respondendo, disseram-lhe: Aonde, Senhor, serão levados? E ele lhes disse: Onde estiver o corpo reunido, ou em outras palavras, onde estiverem reunidos os santos, aí se ajuntarão as águias, ou seja, ali se ajuntarão os remanescentes. Isto falou referindo-se à coligação dos seus santos, e dos anjos que, ao descerem, reunirão a si os remanescentes, um da cama, outra da moenda, e outro do campo, de onde quer que ele queira. Pois na verdade haverá novos céus e nova terra, onde habitará a retidão. E nada haverá de imundo; porquanto a Terra, havendo envelhecido, sim como uma vestimenta, tendo corrompido-se, por conseguinte desaparecerá; e o escabelo de seus pés permanecerá limpo, purificado de todo o pecado.

 

Capítulo 18

1 E contou-lhes também uma parábola, dizendo: Os homens devem orar sempre, e nunca desfalecer,

 

2 Dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem.

3 Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário.

4 E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens,

5 Todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito.

6 E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz.

 

7 E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que ature por muito tempo os homens?

8 Digo-vos que ele virá; e quando vier, depressa fará justiça a favor de seus santos. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?

9 E disse também esta parábola a uns homens que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros:

 

10 Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano.

11 O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.

12 Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.

13 O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!

14 Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.

 

15 E traziam-lhe também infantes, para que ele lhes tocasse; e os discípulos, vendo isto, repreendiam-nos.

16 Mas Jesus, chamando-os, disse: Deixai vir a mim os pequeninos, e não os impeçais, porque dos tais é o reino de Deus.

17 Em verdade vos digo que, qualquer que não receber o reino de Deus como criança, não entrará nele.

 

18 E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?

19 Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém há bom, senão um, que é Deus.

20 Sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a teu pai e a tua mãe.

21 E disse ele: Todas essas coisas tenho observado desde a minha mocidade.

22 E quando Jesus ouviu isto, disse-lhe: Ainda te falta uma coisa; vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me.

23 Mas, ouvindo ele isto, ficou muito triste, porque era muito rico.

24 E, vendo Jesus que ele ficara muito triste, disse: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!

25 Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.

 

26 E os que ouviram isto lhe  disseram: Logo quem pode salvar-se?

27 Mas ele lhes respondeu: é impossível àqueles que confiam nas riquezas entrarem no reino de Deus; mas é possível a Deus que aquele que deixar as coisas deste mundo entre.


28 E disse Pedro: Eis que nós deixamos tudo e te seguimos.

29 E ele lhes disse: Na verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de Deus,

 

30 Que não haja de receber muito mais neste mundo, e na vida  vindoura a vida eterna.

 

31 E, tomando consigo os doze, disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém, e se cumprirá no Filho do homem tudo o que pelos profetas foi escrito;

32 Pois há de ser entregue aos gentios, e escarnecido, injuriado e cuspido;

33 E, havendo-o açoitado, o matarão; e ao terceiro dia ressuscitará.

 

34 E eles nada disto entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não lembrando-se do que se lhes dizia.

 

35 E aconteceu que chegando ele perto de Jericó, estava um cego assentado junto do caminho, mendigando.

36 E, ouvindo passar a multidão, perguntou que era aquilo.

37 E disseram-lhe que Jesus Nazareno passava.

38 Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim.

 

39 E os que iam passando repreendiam-no, dizendo-lhe que se calasse; mas ele clamava ainda mais, dizendo: Filho de Davi, tem misericórdia de mim!

 

40 Então Jesus, parando, mandou que lho trouxessem; e, chegando ele, perguntou-lhe,

41 Dizendo: Que queres que te faça? E ele disse: Senhor, que eu veja.

42 E Jesus lhe disse: Vê; a tua fé te salvou.

 

43 E logo viu, e seguia-o, glorificando a Deus. E todos os discípulos, vendo isto, dava louvores a Deus.

 


Capítulo 19

1 E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando.

2 E eis que havia ali um homem chamado Zaqueu; e era este um chefe dos publicanos, e era rico.

3 E procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura.

4 E, correndo adiante, subiu a um sicômoro para o ver; porque havia de passar por ali.

5 E quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa.

6 E, apressando-se, desceu, e recebeu-o alegremente.

 

7 E, vendo os discípulos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador.

 

8 E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado.

9 E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão.

10 Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.

 

11 E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e os judeus ensinavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus.

 

12 Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim de tomar para si um reino e voltar depois.

13 E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes: Negociai até que eu venha.

14 Mas os seus concidadãos odiavam-no, e mandaram após ele embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós.

15 E aconteceu que, voltando ele, depois de ter tomado o reino, disse que lhe chamassem aqueles servos, a quem tinha dado o dinheiro, para saber o que cada um tinha ganhado, negociando.

16 E veio o primeiro, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu dez minas.

 

17 E ele lhe disse: Bem feito, servo bom, porque no mínimo foste fiel, sobre dez cidades terás autoridade.

 

18 E veio o segundo, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu cinco minas.

19 E a este disse também: Sê tu também sobre cinco cidades.

20 E veio outro, dizendo: Senhor, aqui está a tua mina, que guardei num lenço;

21 Porque tive medo de ti, que és homem rigoroso, que tomas o que não puseste, e segas o que não semeaste.

22 Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não semeei;

 

23 Por que não puseste, pois, o meu dinheiro no banco, para que eu, vindo, o recebesse com os juros?

 

24 E disse aos que estavam com ele: Tirai-lhe a mina, e dai-a ao que tem dez minas.

 

25 [Versículo omitido pelo profeta]

26 Pois eu vos digo que a qualquer que se ocupar, ser-lhe-á dado, mas ao que não se ocupar, até o que já recebeu lhe será tirado.

 

27 E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim.

28 E, dito isto, ia caminhando adiante, subindo para Jerusalém.

29 E aconteceu que, chegando perto de Betfagé, e de Betânia, ao monte chamado das Oliveiras, mandou dois dos seus discípulos,

 

30 Dizendo: Ide à aldeia que está defronte, e aí, ao entrar, achareis preso um jumentinho em que nenhum homem ainda montou; soltai-o e trazei-mo.

 

31 E, se alguém vos perguntar: Por que o soltais ? assim lhe direis: Porque o Senhor o há de mister.

32 E, indo os que haviam sido mandados, acharam como lhes dissera.

33 E, quando soltaram o jumentinho, seus donos lhes disseram: Por que soltais o jumentinho?

34 E eles responderam: O Senhor o há de mister.

35 E trouxeram-no a Jesus; e, lançando sobre o jumentinho as suas vestes, puseram Jesus em cima.

36 E, indo ele, estendiam no caminho as suas vestes.

37 E, quando já chegava perto da descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, regozijando-se, começou a dar louvores a Deus em alta voz, por todas as maravilhas que tinham visto,

38 Dizendo: Bendito o Rei que vem em nome do Senhor; paz no céu, e glória nas alturas.

39 E disseram-lhe de entre a multidão alguns dos fariseus: Mestre, repreende os teus discípulos.

 

40 E, respondendo ele, disse-lhes: Se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.

 

41 E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela,

42 Dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos.

43 Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados;

44 E te derrubarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação.

45 E, entrando no templo, começou a expulsar todos os que nele vendiam e compravam,

46 Dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa é casa de oração; mas vós fizestes dela covil de salteadores.

47 E todos os dias ensinava no templo; mas os principais dos sacerdotes, e os escribas, e os principais do povo procuravam matá-lo.

48 E não achavam meio de o fazer, porque todo o povo pendia para ele, escutando-o.

 

Capítulo 20

1 E aconteceu num daqueles dias que, estando ele ensinando o povo no templo, e anunciando o evangelho, sobrevieram os principais dos sacerdotes e os escribas com os anciãos,

2 E falaram-lhe, dizendo: Dize-nos, com que autoridade fazes estas coisas? Ou, quem é que te deu esta autoridade?

3 E, respondendo ele, disse-lhes: Também eu vos farei uma pergunta: Dizei-me pois:

4 O batismo de João era do céu ou dos homens?

5 E eles arrazoavam entre si, dizendo: Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então por que o não crestes?

6 E se dissermos: Dos homens; todo o povo nos apedrejará, pois têm por certo que João era profeta.

7 E responderam que não sabiam de onde era.

8 E Jesus lhes disse: Tampouco vos direi com que autoridade faço isto.

9 E começou a dizer ao povo esta parábola: Certo homem plantou uma vinha, e arrendou-a a uns lavradores, e partiu para fora da terra por muito tempo;

 

10 E no tempo próprio da colheita  mandou um servo aos lavradores, para que lhe dessem dos frutos da vinha; mas os lavradores, espancando-o, mandaram-no vazio.

 

11 E tornou ainda a mandar outro servo; mas eles, espancando também a este, e afrontando-o, mandaram-no vazio.

12 E tornou ainda a mandar um terceiro; mas eles, ferindo também a este, o expulsaram.

13 E disse o senhor da vinha: Que farei? Mandarei o meu filho amado; talvez, vendo-o, seja respeitado.

14 Mas, vendo-o os lavradores, arrazoaram entre si, dizendo: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, para que a herança seja nossa.

15 E, lançando-o fora da vinha, o mataram. Que lhes fará, pois, o senhor da vinha?

 

16 Irá, e destruirá estes lavradores, e dará a outros a vinha. E, ouvindo eles isto, disseram: Não permita Deus que seja assim!

 

17 Mas ele, olhando para eles, disse: Que é isto, pois, que está escrito? A pedra, que os edificadores reprovaram, Essa foi feita cabeça da esquina.

18 Qualquer que cair sobre aquela pedra ficará em pedaços, e aquele sobre quem ela cair será feito em pó.

19 E os principais dos sacerdotes e os escribas procuravam lançar mão dele naquela mesma hora; mas temeram o povo; porque entenderam que contra eles dissera esta parábola.

 

20 E, observando-o, mandaram espias, que se fingissem justos, para o apanharem nalguma palavra, e, fazendo assim, o entregarem à jurisdição e poder do presidente.

 

21 E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, nós sabemos que falas e ensinas bem e retamente, e que não consideras a aparência da pessoa, mas ensinas com verdade o caminho de Deus.

22 é-nos lícito dar tributo a César ou não?

23 E, entendendo ele a sua astúcia, disse-lhes: Por que me tentais?

24 Mostrai-me uma moeda. De quem tem a imagem e a inscrição? E, respondendo eles, disseram: De César.

25 Disse-lhes então: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.

26 E não puderam apanhá-lo em palavra alguma diante do povo; e, maravilhados da sua resposta, calaram-se.

27 E, chegando-se alguns dos saduceus, que dizem não haver ressurreição, perguntaram-lhe,

28 Dizendo: Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se o irmão de algum falecer, tendo mulher, e não deixar filhos, o irmão dele tome a mulher, e suscite posteridade a seu irmão.

 

29 Houve, pois, sete irmãos.  O primeiro tomou mulher, e morreu sem filhos;

 

30 E tomou-a o segundo por mulher, e ele morreu sem filhos.

 

31 E tomou-a o terceiro de igual modo, e também os sete; e morreram, e não deixaram filhos.

 

32 E por último, depois de todos, morreu também a mulher.

33 Portanto, na ressurreição, de qual deles será a mulher, pois que os sete por mulher a tiveram?

34 E, respondendo Jesus, disse-lhes: Os filhos deste mundo casam-se, e dão-se em casamento;

 

35 Mas os que forem havidos por dignos de alcançar o mundo vindouro, através da ressureição dentre os mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento;

 

36 Porque já não podem mais morrer; pois são iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição.

37 E que os mortos hão de ressuscitar também o mostrou Moisés junto da sarça, quando chama ao Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaque, e Deus de Jacó.

38 Ora, Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele vivem todos.

39 E, respondendo alguns dos escribas, disseram: Mestre, disseste bem.

40 E não ousavam perguntar-lhe mais coisa alguma.

41 E ele lhes disse: Como dizem que o Cristo é filho de Davi?

 

42 Visto como o mesmo Davi disse no livro dos Salmos: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita,

 

43 Até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés.

44 Se Davi lhe chama Senhor, como é ele seu filho?

45 E, ouvindo-o todo o povo, disse Jesus aos seus discípulos:

46 Guardai-vos dos escribas, que querem andar com vestes compridas; e amam as saudações nas praças, e as principais cadeiras nas sinagogas, e os primeiros lugares nos banquetes;

47 Que devoram as casas das viúvas, fazendo, por pretexto, longas orações. Estes receberão maior condenação.

 

Capítulo 21

1 E, olhando ele, viu os ricos lançarem as suas ofertas na arca do tesouro;

2 E viu também uma pobre viúva lançar ali duas pequenas moedas;

3 E disse: Em verdade vos digo que lançou mais do que todos, esta pobre viúva;

4 Porque todos aqueles deitaram para as ofertas de Deus do que lhes sobeja; mas esta, da sua pobreza, deitou todo o sustento que tinha.

5 E, dizendo alguns a respeito do templo, que estava ornado de formosas pedras e dádivas, disse:

6 Quanto a estas coisas que vedes, dias virão em que não se deixará pedra sobre pedra, que não seja derrubada.

 

7 E perguntaram-lhe os discípulos, dizendo: Mestre, quando serão, pois, estas coisas? E que sinal mostrarás quando isto estiver para acontecer?

8 Disse então ele: O tempo se aproxima, portanto, vede que não vos enganem, porque virão muitos em meu nome, dizendo: Sou eu o Cristo, e o tempo está próximo. Não vades, portanto, após eles.

9 E, quando ouvirdes de guerras e sedições, não vos assusteis. Porque é necessário que isto aconteça primeiro, mas este não é o fim.

 

10 Então lhes disse: Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra reino;

11 E haverá em vários lugares grandes terremotos, e fomes e pestilências; haverá também coisas espantosas, e grandes sinais do céu.

 

12 Mas antes que venham todas estas coisas lançarão mão de vós, e vos perseguirão, entregando-vos às sinagogas e às prisões, e conduzindo-vos à presença de reis e presidentes, por amor do meu nome.

13 [Versículo omitido pelo profeta]

14 Decidi, pois, em vossos corações não premeditar como haveis de responder;

15 Porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir nem contradizer todos quantos se vos opuserem. E retornar-se-vos-á como testemunho.

 

16 E até pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos sereis entregues; e matarão alguns de vós.

 

17 E de todo o mundo sereis odiados por causa do meu nome.

 

18 Mas não perecerá um único cabelo da vossa cabeça.

19 Na vossa paciência possuí as vossas almas.

20 Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação.

 

21 Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que estiverem no meio da cidade, saiam; e os que estiverem nos campos não tornem a entrar na cidade.

 

22 Porque dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas.

23 Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias! porque haverá grande aperto na terra, e ira sobre este povo.

24 E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem.

 

25 Ora, estas coisas lhes falou a respeito da destruição de Jerusalém. E então lhe perguntaram os discípulos, dizendo: Mestre, conta-nos sobre tua vinda. E ele lhes respondeu e disse: Na geração em que os tempos dos gentios se completarem haverá sinais no sol e na lua e nas estrelas; e na terra angústia das nãçoes, em perplexidade; como o  bramido do mar e das ondas.

26 A Terra estará perturbada, bem como as águas do grande abismo; homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobrevirão ao mundo; porquanto as virtudes do céu serão abaladas.

27 [Versículo omitido pelo profeta]

28 Ora, quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque o dia da vossa redenção está próxima. E então verão o Filho do homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória.

29 E contou-lhes uma parábola, dizendo: Olhai para a figueira, e para todas as árvores;

 

30 Quando já têm rebentado, vós sabeis por vós mesmos, vendo-as, que perto está já o verão.

31 Assim também vós, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o reino de Deus está perto.

 

32 Em verdade vos digo que não passará esta geração, a geração em que se completarão os tempos dos gentios, até que tudo se cumpra.

 

33 Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar.

 

34 Que meus discípulos, portanto, olhem por si, não aconteça que os seus corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e venha sobre si de improviso aquele dia.

 

35 Porque virá como um laço sobre todos os que habitam na face de toda a terra.

 

36 E o que digo a um, digo a todos: Vigiai, pois, em todo o tempo  orando e guardando meus mandamentos, para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do homem quando este vier revestido da glória de seu Pai.

 

37 E de dia ensinava no templo, e à noite, saindo, ficava no monte chamado das Oliveiras.

 

38 E o povo ia ter com ele ao templo, de manhã cedo, para o ouvir.

 

Capítulo 22

1 Estava, pois, perto a festa dos ázimos, chamada a páscoa.

 

2 E os principais dos sacerdotes, e os escribas, andavam procurando como o matariam; mas temiam o povo.

 

3 Entrou, porém, Satanás em Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, o qual era do número dos doze.

4 E foi, e falou com os principais dos sacerdotes, e com os capitães, de como lho entregaria;

5 Os quais se alegraram, e convieram em lhe dar dinheiro.

 

6 E ele lhes prometeu; e buscava oportunidade para lho entregar sem alvoroço.

 

7 Chegou, porém, o dia dos ázimos, em que importava sacrificar a páscoa.

8 E mandou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos.

9 E eles lhe perguntaram: Onde queres que a preparemos?

10 E ele lhes disse: Eis que, quando entrardes na cidade, encontrareis um homem, levando um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar.

11 E direis ao pai de família da casa: O Mestre te diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?

12 Então ele vos mostrará um grande cenáculo mobilado; aí fazei preparativos.

13 E, indo eles, acharam como lhes havia sido dito; e prepararam a páscoa.

14 E, chegada a hora, pôs-se à mesa, e com ele os doze apóstolos.

15 E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça;

 

16 Porque vos digo que não a comerei mais até que se cumpra o que foi escrito pelos profetas a respeito de mim. Então comerei convosco no reino de Deus.

17 E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti entre vós;

 

18 Porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus.

 

19 E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim.

 

20 Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.

21 Mas eis que a mão do que me trai está comigo à mesa.

22 E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado;  mas ai daquele homem por quem é traído!

23 E começaram a perguntar entre si qual deles seria o que havia de fazer isto.

 

24 Houve também entre eles contenda, sobre qual deles seria considerado o maior.

 

25 E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores.

 

26 Mas não deverá ser assim convosco; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve.

27 Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Eu não sou como aquele que está à mesa, mas entre vós sou como aquele que serve.

 

28 E vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações.

29 E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou,

 

30 Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel.

31 Disse também o Senhor: Simão, Simão, eis que Satanás vos desejou para cirandar os filhos do reino como trigo;

32 Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece osteus irmãos.

33 E, estando com pesar, ele lhe disse: Senhor, estou pronto a ir contigo até à prisão e à morte.

34 Mas o Senhor disse: Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes negues que me conheces.

 

35 E disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada.

 

36 Disse-lhes pois: Digo vos outra vez que aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a;

 

37 Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento.

38 E eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta.

 

39 E, saindo, foi, como costumava, para o Monte das Oliveiras; e os seus discípulos o seguiram.

 

40 E quando chegou àquele lugar, disse-lhes: Orai, para que não entreis em tentação.

41 E apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava,

42 Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua.

43 E apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia.

 

44 E, posto em agonia, orava mais intensamente. E suou, como foi o caso, grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.

45 E, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos, e achou-os dormindo; pois estavam cheios de tristeza.

 

46 E disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação.

47 E, estando ele ainda a falar, surgiu uma multidão; e um dos doze, que se chamava Judas, ia adiante dela, e chegou-se a Jesus para o beijar.

48 E Jesus lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do homem?

49 E, vendo os que estavam com ele o que ia suceder, disseram-lhe: Senhor, feriremos à espada?

50 E um deles feriu o servo do sumo sacerdote, e cortou-lhe a orelha direita.

51 E, respondendo Jesus, disse: Deixai-os; basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou.

52 E disse Jesus aos principais dos sacerdotes, e capitães do templo, e anciãos, que tinham ido contra ele: Saístes, como a um salteador, com espadas e varapaus?

53 Tenho estado todos os dias convosco no templo, e não estendestes as mãos contra mim, mas esta é a vossa hora e o poder das trevas.

54 Então, prendendo-o, o levaram, e o puseram em casa do sumo sacerdote. E Pedro seguia-o de longe.

55 E, havendo-se acendido fogo no meio do pátio, estando todos sentados, assentou-se Pedro entre eles.

56 E como certa criada, vendo-o estar assentado ao fogo, pussesse os olhos nele, disse: Este também estava com ele.

57 Porém, ele negou-o, dizendo: Mulher, não o conheço.

58 E, um pouco depois, vendo-o outro, disse: Tu és também deles. Mas Pedro disse: Homem, não sou.

59 E, passada quase uma hora, um outro afirmava, dizendo: Também este verdadeiramente estava com ele, pois também é galileu.

60 E Pedro disse: Homem, não sei o que dizes. E logo, estando ele ainda a falar, cantou o galo.

61 E, virando-se o Senhor, olhou para Pedro, e Pedro lembrou-se da palavra do Senhor, como lhe havia dito: Antes que o galo cante hoje, me negarás três vezes.

62 E, saindo Pedro para fora, chorou amargamente.

63 E os homens que detinham Jesus zombavam dele, ferindo-o.

64 E, vendando-lhe os olhos, feriam-no no rosto, e perguntavam-lhe, dizendo: Profetiza, quem é que te feriu?

65 E outras muitas coisas diziam contra ele, blasfemando.

66 E logo que foi dia ajuntaram-se os anciãos do povo, e os principais dos sacerdotes e os escribas, e o conduziram ao seu concílio, e lhe perguntaram:

67 és tu o Cristo? Dize-no-lo. Ele replicou: Se vo-lo disser, não o crereis;

68 E também, se vos perguntar, não me respondereis, nem me soltareis.

69 Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus.

70 E disseram todos: Logo, és tu o Filho de Deus? E ele lhes disse: Vós dizeis que eu sou.

71 Então disseram: De que mais testemunho necessitamos? pois nós mesmos o ouvimos da sua boca.

 

Capítulo 23

1 E, levantando-se toda a multidão deles, o levaram a Pilatos.

2 E começaram a acusá-lo, dizendo: Havemos achado este pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo que ele mesmo é Cristo, o rei.

 

3 E Pilatos perguntou-lhe, dizendo: Tu és o Rei dos Judeus? E ele, respondendo, disse-lhe: Sim, tu o dizes.

 

4 E disse Pilatos aos principais dos sacerdotes, e à multidão: Não acho culpa alguma neste homem.

5 Mas eles insistiam cada vez mais, dizendo: Alvoroça o povo ensinando por toda a Judéia, começando desde a Galiléia até aqui.

6 Então Pilatos, ouvindo falar da Galiléia perguntou se aquele homem era galileu.

7 E, sabendo que era da jurisdição de Herodes, remeteu-o a Herodes, que também naqueles dias estava em Jerusalém.

 

8 E Herodes, quando viu a Jesus, alegrou-se muito; porque havia muito que desejava vê-lo por muito tempo, por ter ouvido dele muitas coisas; e esperava que lhe veria fazer algum sinal.

 

9 E interrogava-o com muitas palavras, mas ele nada lhe respondia.

 

10 E estavam o sacerdote principal  e os escribas acusando-o com grande veemência.

 

11 E Herodes, com os seus soldados, desprezou-o e, escarnecendo dele, vestiu-o de uma roupa resplandecente e tornou a enviá-lo a Pilatos.

 

12 E no mesmo dia, Pilatos e Herodes entre si se fizeram amigos; pois antes disso andavam em inimizade um com o outro.

13 E, convocando Pilatos o sacerdote principal, e os magistrados, e o povo,

 

14 Disse-lhes: Haveis-me apresentado este homem como pervertedor do povo; e eis que, examinando-o na vossa presença, nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem.

15 Nem mesmo Herodes, porque a ele vos remeti, e eis que não tem feito coisa alguma digna de morte.

16 Castigá-lo-ei, pois, e soltá-lo-ei.

17 E era-lhe necessário soltar-lhes um pela festa.

18 Mas toda a multidão clamou a uma, dizendo: Fora daqui com este, e solta-nos Barrabás.

19 O qual fora lançado na prisão por causa de uma sedição feita na cidade, e de um homicídio.

20 Falou, pois, outra vez Pilatos, querendo soltar a Jesus.

21 Mas eles clamavam em contrário, dizendo: Crucifica-o, crucifica-o.

22 Então ele, pela terceira vez, lhes disse: Mas que mal fez este? Não acho nele culpa alguma de morte. Castigá-lo-ei pois, e soltá-lo-ei.

23 Mas eles instavam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principais dos sacerdotes, redobravam.

24 Então Pilatos julgou que devia fazer o que eles pediam.

 

25 E soltou-lhes o que fora lançado na prisão por uma sedição e homicídio, que era o que pediam; e entregou Jesus à vontade deles.

 

26 E quando o iam levando, tomaram um certo Simão, cireneu, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para que a levasse após Jesus.

27 E seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, as quais batiam nos peitos, e o lamentavam.

 

28 Jesus, porém, voltou-se para elas e disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos.

 

29 Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não amamentaram!

30 Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos.

 

31 E se no madeiro verde se faz isto, que se fará ao madeiro seco? Falou isto referindo-se à dispersão de Israel, e à desolação dos pagãos, ou em outras palavras, os gentios.

 

32 E também conduziram outros dois, que eram malfeitores, para com ele serem mortos.

33 E, quando chegaram ao lugar chamado a Caveira, ali o crucificaram, e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda.

 

34 E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (referindo-se aos soldados que o crucificaram). E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes.

 

35 E o povo estava olhando. E também os príncipes zombavam dele, dizendo: Aos outros salvou, salve-se a si mesmo, se este é o Cristo, o escolhido de Deus.

 

36 E também uns soldados o escarneciam, chegando-se a ele, e apresentando-lhe vinagre.

 

37 E dizendo: Se tu és o Rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo.

38 E também por cima dele, estava um título, escrito em letras gregas, romanas, e hebraicas: Este é o Rei dos Judeus.

 

39 E um dos malfeitores que foi crucificado com ele blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós.

 

40 Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação?

41 E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.

42 E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.

43 E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.

44 E era já quase a hora sexta, e houve trevas em toda a terra até à hora nona, escurecendo-se o sol;

45 E rasgou-se ao meio o véu do templo.

46 E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou.

47 E o centurião, vendo o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: Na verdade, este homem era justo.

48 E toda a multidão que se ajuntara a este espetáculo, vendo o que havia acontecido, voltava batendo nos peitos.

 

49 E todos os seus conhecidos, e mulheres que juntamente o haviam seguido desde a Galiléia, estavam de longe vendo estas coisas.

50 E eis que um homem por nome José, conselheiro, homem bom e justo,

51 Que no mesmo dia não tinha consentido no conselho e nos atos dos outros, homem este de Arimatéia, cidade dos judeus, que também esperava o reino de Deus;

52 Ele, chegando a Pilatos, pediu o corpo de Jesus.

 

53 E, havendo-o tirado, envolveu-o num lençol, e pô-lo num sepulcro escavado numa penha, onde ninguém ainda havia sido posto.

54 E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado.

55 E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galiléia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo.

56 E, voltando elas, prepararam especiarias e ungüentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento.

 

Capítulo 24

1 E no primeiro dia da semana, muito de madrugada, foram as mulheres ao sepulcro, levando as especiarias que tinham preparado, e algumas outras com elas.

2 E acharam a pedra revolvida do sepulcro, e dois anjos com vestes resplandecentes estando juntos a ela.

3 E, entraram no sepulcro, e não achando o corpo do Senhor Jesus,

4 E elas ficaram muito perplexas a esse respeito;

5 E estavam muito atemorizadas, e abaixaram o rosto para o chão, mas eis que os anjos lhes disseram: Por que buscais o vivente entre os mortos?

 

6 Não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos como vos falou, estando ainda na Galiléia,

7 Dizendo: Convém que o Filho do homem seja entregue nas mãos de homens pecadores, e seja crucificado, e ao terceiro dia ressuscite.

8 E lembraram-se das suas palavras.

9 E, voltando do sepulcro, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os demais.

10 E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria, mãe de Tiago, e as outras que com elas estavam, as que diziam estas coisas aos apóstolos.

11 E as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não as creram.

 

12 Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro e, entrando, viu só os lençóis ali postos; e retirou-se, admirando consigo aquele caso.

 

13 E eis que no mesmo dia iam dois deles para uma aldeia, que distava de Jerusalém sessenta estádios, cujo nome era Emaús.

14 E iam falando entre si de tudo aquilo que havia sucedido.

15 E aconteceu que, indo eles falando entre si, e fazendo perguntas um ao outro, o mesmo Jesus se aproximou, e ia com eles.

 

16 Mas os olhos deles estavam como que fechados, ou cobertos, para que o não conhecessem.

 

17 E ele lhes disse: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós, e por que estais tristes?

18 E, respondendo um, cujo nome era Cléopas, disse-lhe: és tu só peregrino em Jerusalém, e não sabes as coisas que nela têm sucedido nestes dias?

19 E ele lhes perguntou: Quais? E eles lhe disseram: As que dizem respeito a Jesus Nazareno, que foi homem profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo;

20 E como os principais dos sacerdotes e os nossos príncipes o entregaram à condenação de morte, e o crucificaram.

21 E nós esperávamos que fosse ele o que remisse Israel; mas agora, sobre tudo isso, é já hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram.

22 é verdade que também algumas mulheres dentre nós nos maravilharam, as quais de madrugada foram ao sepulcro;

 

23 E, não achando o seu corpo, voltaram, dizendo que também tinham visto uma visão de anjos, que disseram que ele vive.

 

24 E alguns dos que estavam conosco foram ao sepulcro, e acharam ser assim como as mulheres haviam dito; porém, a ele não o viram.

25 E ele lhes disse: ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!

26 Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória?

27 E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras.

28 E chegaram à aldeia para onde iam, e ele fez como quem ia para mais longe.

29 E eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles.

 

30 E aconteceu que, estando com eles à mesa, tomando o pão,  abençoou e partiu, e lho deu.

31 Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e ele foi arrebatado de forma que não o viram mais.

 

32 E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras?

33 E na mesma hora, levantando-se, tornaram para Jerusalém, e acharam congregados os onze, e os que estavam com eles,

34 Os quais diziam: Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão.

 

35 E eles lhes contaram o que viram e ouviram no caminho, e como deles fora conhecido no partir do pão.

 

36 E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: Paz seja convosco.

37 E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito.

38 E ele lhes disse: Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações?

39 Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho.

40 E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.

 

41 E, estando maravilhados e não crendo eles ainda por causa da alegria, disse-lhes: Tendes aqui alguma coisa que comer?

 

42 Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado, e um favo de mel;

43 O que ele tomou, e comeu diante deles.

44 E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos.

45 Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras.

46 E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos,

47 E em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém.

48 E destas coisas sois vós testemunhas.

49 E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder.

50 E levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou.

 

51 E aconteceu que, abençoando-os ele, foi tirado dentre eles e elevado ao céu.

 

52 E, adorando-o eles, tornaram com grande júbilo para Jerusalém.

53 E estavam sempre no templo, louvando e bendizendo a Deus. Amém.

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